Interrogações sobre lugares

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Uma luz zenital banha agora a Sala Zip´Up, com uma luminosidade que ultrapassa as pequenas janelas laterais do nicho arquitetônico que hoje abriga a obra sonora Ela Caminha em Direção à Fronteira. Este também é o título da individual da artista paulistana Ana Mazzei, que inaugura a versão 2012 do projeto Zip´Up. Tal iluminação virtual perpassa paredes, teto e estrutura da edificação, que outrora já foi a galeria Mirante das Artes, de Pietro Maria Bardi, e se espalha pelo prédio bastante permeável assinado por Marcelo Rosenbaum.

“Move a cabeça para trás e examina o zênite (pausa longa)”. Tal sentença formulada por Beckett está inscrita em placa de concreto, a sugerir indicialmente percursos de leitura da proposta poética oferecida por Mazzei. É interessante sublinhar esse caráter aberto presente na exposição da artista, que cria, pela compilação de pequenos objetos, coisas e elementos, um elogio às micronarrativas, às pequenas histórias, apoiando-se em itinerários sem muito rumo, dispostos em territórios movediços.

“O homem a encara e repete a mesma pergunta/ ‘O que você disse?’/ A mulher vira-se e repete/ ‘Nada’.” O trecho da obra sonora Ela Caminha em Direção à Fronteira traz algo da dramaturgia de Beckett, do absurdo de Ionesco, mas também das rupturas espaço-temporais da arriscada autoria cinematográfica de Resnais, Tarkovski e Lynch. Tendo como recipiente uma caixa metálica, com toques residuais, a narrativa de personagens sem atitudes e paradeiros determinados e lógicos reverbera na dezena de outros elementos dispostos, próximos uns aos outros, numa sala expositiva ao estilo cubo branco. A errância da personagem que não deixa de repetir a frase “Ela caminha em direção à fronteira” ressoa no universo coletado e trazido à tona
por Mazzei.

Logo à entrada, um objeto (ou uma escultura?) de concreto tem em sua composição uma espécie de rosário, como vestígio de uma ação mais recolhida. Ladeia pequenos módulos cinzentos, quadrados na parede colocados mais acima do que telas de uma exposição. Franjas em cinza, feitas de serpentina, estão sedimentadas numa estrutura retangular, na mesma parede. É impossível não lembrar de Marcel Broodthaers (1924-1976), influência declarada da paulistana na elaboração desse ambiente instalativo. “Hoje, essa interação poética, oscilatória e muitas vezes irônica com objetos de ‘arte’ e de ‘não-arte’, com o falso e o fetiche, com palavras e significados, com a ficção e a realidade, pode ser geralmente encontrada na produção artística
contemporânea, em São Paulo bem como em outros lugares do mundo. Tem surgido um interesse cada vez maior pelas categorias que eram tão fundamentais na obra de Broodthaers: sistemas e sistemas fictícios de ordem, tais como o museu, o arquivo, a biblioteca, a coleção, mas também o livro, o texto e a letra”1, analisa o curador e crítico de arte Jochen Volz sobre a relevância atual do artista belga.

De certa forma, Mazzei gera fricções ruidosas para apresentar seu processo artístico, mais amplo do que as pinturas que a tornaram mais conhecida no circuito paulistano. Não falta a discussão pictórica, mas ela faz parte de relações criadas nesse ambiente. As cinco pequenas telas em negro têm um dado especular, mas são espelhos que não refletem o que esperamos. A mistura de diversas técnicas e a figuração indefinida _vemos cães, pessoas, paisagens, mas a matéria da tinta abriga volumes disformes _ resulta em formas instáveis como as de Espelho Cego (1970), de Cildo Meireles, ou a de François, protagonista do longa A Fronteira da Alvorada (2008), de Philippe Garrel, fitando o espelho do seu quarto e reconhecendo, num misto de pavor e fascínio, sua amada Carole no pós-morte.

A falta lacaniana pontua Ela Caminha em Direção à Fronteira, principalmente quando encontramos uma pequena escultura de bronze, situada no piso e em fragmentos. “Tudo o que é real está sempre e obrigatoriamente em seu lugar, mesmo quando se o perturba. O real tem por propriedade carregar seu lugar na sola dos sapatos. Podem desarrumar quanto quiserem o real, ainda assim nossos corpos vão continuar em seu lugar depois da explosão de uma bomba atômica, em seu lugar de pedaços. A ausência de alguma coisa no real é puramente simbólica”2, afirma o pensador francês. A mesma observação pode ser estendida à outra peça tridimensional, de traços delicados e de poucos centímetros, que tanto pode evocar algemas como também o símbolo do infinito, mas algo deslocado, desfeito _ ainda mais porque disposta isoladamente em uma parede branca. “A arte sempre teve a ver com a correspondência, especialmente a correspondência entre a imagem e sua reprodução, entre uma palavra e seu significado, entre a ficção e a realidade, entre a arte e a vida”3, assinala Dorothea Zwirner a respeito da obra de Broodthaers. Hoje, Ana Mazzei habilmente lança para nós correspondências a serem completadas, cujos sentidos nunca deixam de provocar novos enigmas e questões.

Mario Gioia

Notas

1. LAGNADO, Lisette (org.). 27ª Bienal de São Paulo – Seminários. Fundação Bienal de São Paulo/ Cobogó, São Paulo, 2006, p. 24
2. LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 4 – A Relação de Objeto. Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 1995, p. 98
3. LAGNADO, Lisette (org.). Idem, p. 75